terça-feira, 21 de janeiro de 2003

A internet na China




O boletim de dezembro de 2002 da Anistia Internacional dá destaque à censura crescente que o governo chinês vem exercendo sobre a internet. Depois de um incêndio mal explicado num cibercafé de Pequim, em junho passado, que deixou um saldo de 25 mortos, foram fechados mais de 2400 cibercafés na cidade, por supostas questões de "segurança". Não chega a ser um número chocante num país onde há, dizem, 200 mil cibercafés -- mas é muito revelador. A rede está longe de ser uma favorita das autoridades chinesas, que têm baixado leis cada vez mais severas restringindo o seu uso, e adotam, sem subterfúgios, medidas como o bloqueio em massa de sites considerados "subversivos" -- de ferramentas de busca a publicações estrangeiras, passando por domínios de hospedagem de websites e blogs.

Um desses domínios é o Blogspot, onde está pendurada a maioria dos blogs criados pelo Blogger.com -- inclusive o meu internETC. Comprovei isso pessoalmente. Embora pudesse escrever e publicar meus posts no Blogger.com, em Xangai não conseguia acesso ao blog propriamente dito. Nem a ele, nem a qualquer outro blog hospedado no blogspot. O curioso é que, como -- felizmente! -- não estamos acostumados à censura na rede, num primeiro momento achei que o Blogspot estava simplesmente fora do ar; afinal, outros sites carregavam rápido e bem.

Muito rápido: o hotel tinha uma banda larga espertíssima, coisa não incomum na cidade que é, me informaram, uma das mais bem servidas da China em termos de internet. Explica-se: assim como Hong-Kong, Xangai é, essencialmente, uma cidade de negócios, um gigantesco entreposto comercial.

Só quando outros jornalistas que trabalhavam na mesma sala de imprensa começaram a encontrar dificuldades semelhantes é que juntamos os pontos -- de resto bem visíveis no diário em inglês que li durante toda a semana, o "Shanghai Daily", que apresenta ao leitor um mundo descomplicado, onde tudo está ordem, as autoridades são competentes e preocupam-se com o bem-estar da população.

Apesar dessa facilidade de conexão, o grande meio de informação do cidadão em Xangai continua sendo o dazibao, jornal mural exposto nas ruas, em vitrines tão onipresentes quanto as bicicletas, e lido de pé, como na foto. Computadores e eletrônicos em geral, ainda que Made in China, são caros até pelos padrões brasileiros -- o que efetivamente restringe o seu acesso às camadas mais favorecidas.

Isso, contudo, não impede que a China seja o mercado internet com maior crescimento no mundo. Desde que foi implantada comercialmente no país em 1995, a rede já conquistou 50 milhões de usuários.

Para muitos chineses, o que ainda nos parece uma hipótese de trabalho ou cenário futurista é absolutamente real: seu primeiro (e em muitos casos, único) contato com a internet se dá através dos telefones celulares, que desempenham, além do óbvio papel de telefones, funções de email, agenda e PDA.

A censura oficial, porém, não faz distinções entre aparelhos. Segundo a Anistia Internacional, há pelo menos 33 prisioneiros de opinião na China neste momento, entre eles Huang Qi, engenheiro de sistemas que montou o primeiro website chinês sobre direitos humanos. De acordo com leis instituídas recentemente, esses prisioneiros podem ser até condenados à morte.

É pouco provável que isso venha a acontecer, considerando-se o barulho universal que uma condenação assim geraria, e a sua repercussão negativa -- num momento em que, justamente, a China prepara-se para as Olimpíadas, e pretende mostrar ao mundo uma imagem positiva. A simples existência dessa ameaça, porém, fala por si só.

(O GLOBO, Info etc., 21.01.2003)

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