quinta-feira, 23 de janeiro de 2003

Última parte

Em que a cronista tenta fazer alguns negócios da China, mas esbarra na sociologia


Antes de viajar para Xangai, li uma "biografia" da cidade, dois guias de turismo e uma quantidade de sites na internet. Por diferentes que sejam suas observações e perspectivas, todos fazem questão de ressaltar um ponto: nunca, jamais, em hipótese alguma, compre nada sem pechinchar. Alguns vão mais longe, e até explicam como pechinchar na China, de modo que não posso reclamar de não ter sido avisada. Acontece que esta é uma informação rigorosamente inútil quando a pechincha não vem de fábrica no DNA, ou não se põe gosto na coisa.

Temos, orientais e ocidentais, visões radicalmente diferentes do que deve ser uma operação comercial bem-sucedida. Para nós, quanto mais rápido se resolve a questão, melhor; para eles, o importante é discutir preço e mercadoria nos mínimos detalhes, nem que nisso se leve o dia inteiro. Essa negociação acontece mesmo em lojas como a da foto, em que os preços estão, pelo menos em tese, bem definidos.

Este não é um hábito pitoresco desenvolvido para divertir e eventualmente esfolar turistas, mas uma diferença cultural profunda e real entre pessoas, países, civilizações e -- suponho -- até épocas. Está ligada ao estilo de vida, ao tempo de que se dispõe e ao que se considera (ou não) útil e valioso -- a começar, é claro, pelo próprio tempo, e pelo que ele representa para cada um.

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Acredito que, um dia, toda a Humanidade tenha feito compras assim. Afinal, nada no mundo tem um valor absoluto e universal; preços são simples medidas de confluência entre oferta e demanda, e é necessário um mínimo de discussão para se chegar a acordo. Na verdade, até hoje passamos parte da vida pechinchando, ainda que de forma menos óbvia, já que a nossa margem de manobra foi consideravelmente reduzida -- da feira, onde pedimos uma dúzia de 13 ao cara das laranjas, à compra do carro novo, quando lemos os classificados e damos mil telefonemas antes de tomar uma decisão.

Outra diferença, em casos como o do carro, é que a pechincha rola em grande parte por escrito. Aquele "Cubro qualquer oferta!", que achamos tão normal, é o grito de desespero do sujeito que quer fazer negócio a qualquer preço e, filosoficamente, não chega a ser muito diferente do gesto do chinês que puxa o freguês pelo braço na hora em que ele se cansou da brincadeira e está indo embora da vigésima quinta lojinha de quinquilharias.

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Mas apenas filosoficamente. Na vida real, fazer compras na China é desesperador para qualquer ocidental que ainda queira aproveitar a luz do dia para bater umas fotos. É impossível comprar um leque ou um bastão de incenso sem passar meia hora discutindo, entrando números numa calculadora que vai e vem entre exclamações ininteligíveis de parte a parte: nem nós entendemos o inglês deles, nem eles, o nosso -- ou o de quem quer que seja. A única coisa compreensível é a linguagem universal dos números.

Funciona (vagamente) assim: o vendedor pede cerca de três vezes mais do que está disposto a aceitar, mas para chegar a este terço negociável, o comprador deve começar a conversa pela metade do seu valor. Assim, se o vendedor mostrar 300 na calculadora, você deve exibir um ar de total perplexidade e teclar 50; diante do que ele fará um ar de desgosto absoluto, e digitará 280; ao que você, em estado de choque, responderá 70; e aí, progressivamente, entre caras e bocas, um baixando e o outro subindo, se chegará a algo em torno dos 100 que farão a felicidade de todos e o bem-estar da nação.

Este tipo de pechincha torna a compra um indiscutível ato de interação social, e devia ser muito gratificante para todos há algumas décadas, num mundo sem pressa, sem cinema e sem televisão, em que ir ao bazar era a maior diversão. Imagino que faça sentido até hoje entre pessoas que moram na mesma região do globo e falam línguas pelo menos parecidas. Mas numa loja de lembrancinhas, onde ninguém se entende e todos estão de passagem?! Tendo que lembrar, em plena experiência cultural, que o dólar está a 8,2 yuan e cerca de 3,4 reais?! Não, meninos, não é uma alegria.

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Para mim, antes de ir à China, o grande mistério a respeito da viagem de Marco Polo não era saber como ele chegou até lá, mas sim como fez para se comunicar com os chineses. Agora mudou um pouco. Eu só queria saber como é que ele conseguiu pechinchar com eles sem calculadora.



(O GLOBO, 23.01.03)

terça-feira, 21 de janeiro de 2003

A internet na China




O boletim de dezembro de 2002 da Anistia Internacional dá destaque à censura crescente que o governo chinês vem exercendo sobre a internet. Depois de um incêndio mal explicado num cibercafé de Pequim, em junho passado, que deixou um saldo de 25 mortos, foram fechados mais de 2400 cibercafés na cidade, por supostas questões de "segurança". Não chega a ser um número chocante num país onde há, dizem, 200 mil cibercafés -- mas é muito revelador. A rede está longe de ser uma favorita das autoridades chinesas, que têm baixado leis cada vez mais severas restringindo o seu uso, e adotam, sem subterfúgios, medidas como o bloqueio em massa de sites considerados "subversivos" -- de ferramentas de busca a publicações estrangeiras, passando por domínios de hospedagem de websites e blogs.

Um desses domínios é o Blogspot, onde está pendurada a maioria dos blogs criados pelo Blogger.com -- inclusive o meu internETC. Comprovei isso pessoalmente. Embora pudesse escrever e publicar meus posts no Blogger.com, em Xangai não conseguia acesso ao blog propriamente dito. Nem a ele, nem a qualquer outro blog hospedado no blogspot. O curioso é que, como -- felizmente! -- não estamos acostumados à censura na rede, num primeiro momento achei que o Blogspot estava simplesmente fora do ar; afinal, outros sites carregavam rápido e bem.

Muito rápido: o hotel tinha uma banda larga espertíssima, coisa não incomum na cidade que é, me informaram, uma das mais bem servidas da China em termos de internet. Explica-se: assim como Hong-Kong, Xangai é, essencialmente, uma cidade de negócios, um gigantesco entreposto comercial.

Só quando outros jornalistas que trabalhavam na mesma sala de imprensa começaram a encontrar dificuldades semelhantes é que juntamos os pontos -- de resto bem visíveis no diário em inglês que li durante toda a semana, o "Shanghai Daily", que apresenta ao leitor um mundo descomplicado, onde tudo está ordem, as autoridades são competentes e preocupam-se com o bem-estar da população.

Apesar dessa facilidade de conexão, o grande meio de informação do cidadão em Xangai continua sendo o dazibao, jornal mural exposto nas ruas, em vitrines tão onipresentes quanto as bicicletas, e lido de pé, como na foto. Computadores e eletrônicos em geral, ainda que Made in China, são caros até pelos padrões brasileiros -- o que efetivamente restringe o seu acesso às camadas mais favorecidas.

Isso, contudo, não impede que a China seja o mercado internet com maior crescimento no mundo. Desde que foi implantada comercialmente no país em 1995, a rede já conquistou 50 milhões de usuários.

Para muitos chineses, o que ainda nos parece uma hipótese de trabalho ou cenário futurista é absolutamente real: seu primeiro (e em muitos casos, único) contato com a internet se dá através dos telefones celulares, que desempenham, além do óbvio papel de telefones, funções de email, agenda e PDA.

A censura oficial, porém, não faz distinções entre aparelhos. Segundo a Anistia Internacional, há pelo menos 33 prisioneiros de opinião na China neste momento, entre eles Huang Qi, engenheiro de sistemas que montou o primeiro website chinês sobre direitos humanos. De acordo com leis instituídas recentemente, esses prisioneiros podem ser até condenados à morte.

É pouco provável que isso venha a acontecer, considerando-se o barulho universal que uma condenação assim geraria, e a sua repercussão negativa -- num momento em que, justamente, a China prepara-se para as Olimpíadas, e pretende mostrar ao mundo uma imagem positiva. A simples existência dessa ameaça, porém, fala por si só.

(O GLOBO, Info etc., 21.01.2003)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2003

Xangai para principiantes




Na quinta passada, enquanto esta coluna circulava por aqui, eu circulava por Xangai, enfrentando um frio danado, um trânsito ensandecido, a barreira da língua e alguns choques culturais de alta voltagem, dos quais não me recuperei de todo, ainda que parte deles fosse esperada.

Em Hong Kong já me haviam dito, por exemplo, que os chineses, acreditando que certos fluidos não devem ser retidos no organismo, acham normal, e até saudável, cuspir na rua; só que, há dois anos, quando fui a Hong Kong, era primavera, e ninguém tinha muito o que escarrar. Já em Xangai, com o termômetro abaixo de zero, as calçadas estavam cheias de, digamos, "maus fluidos".

Para não falar em guimbas de cigarros, coisas quebradas, restos de comida e porcarias de toda a espécie. A imundície é geral e indescritível.

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Por outro lado, sendo possível erguer os olhos do chão -- o que nem sempre se recomenda, já que, estando constantemente em obras, Xangai tem algumas das ruas mais esburacadas do planeta -- o que se vê é de tirar o fôlego: uma cidade em crescimento vertiginoso, cheia de edifícios extraordinários em que brilham luzes e cores, sem qualquer compromisso com este ou aquele estilo arquitetônico.

Projetados em sua maioria por escritórios ocidentais, eles devem mais à estética futurista das histórias em quadrinhos do que aos velhos edifícios coloniais do Bund (pronuncia-se bú-ned ), o passeio às margens do Huangpu (um dos tributários do Yangtzé), que foi, até a vitória do comunismo em 1949, a avenida mais famosa da Ásia.

A impressão que se tem é que, livres da caretice dos conselhos municipais, da gritaria das ONGs e das restrições das associações de moradores, os arquitetos estão se esbaldando, fazendo em Xangai tudo o que não podem fazer em casa. Estão se divertindo como só podem se divertir em sistemas totalitários, sem questiúnculas irrelevantes como o povo ou o orçamento para atrapalhar seus delírios de concreto, vidro e aço.

E, como às vezes acontece com este tipo de paradoxo, estão criando uma paisagem sensacional.

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Em vários pontos da cidade, a demolição das construções antigas se dá ao mesmo tempo em que surgem os novos edifícios, obrigados durante algum tempo a dividir espaço com as últimas ruínas de velhos quarteirões proletários. Nelas, famílias inteiras continuam levando a vida de sempre, usando a calçada como extensão natural das casas pequenas demais para contê-las. O resultado é tão incongruente como se, em frente ao Rio Branco 1, houvesse meia dúzia de máquinas de lavar e fogões a lenha em funcionamento, cercados de varais de roupa.

Mas que ninguém se iluda com este ridículo passageiro: Xangai, que começou a ser reconstruída para valer pelo governo chinês há meros dez anos, já é uma das cidades mais interessantes do mundo. Na semana passada havia um certo desapontamento no ar porque a Disney escolheu Hong Kong como local para seu próximo parque temático, mas o meu palpite é que Xangai, uma cidade que dispensa atrações artificiais, não está perdendo nada.

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É claro que nem só de considerações sócio-arquitetônicas se faz uma visita à China. Entre outras dezenas de sustos e estranhezas, há os restaurantes, onde -- graças a Deus! -- não reconhecemos 90% da comida que nos é servida e, nos 10% restantes, reconhecemos apenas a pimenta; e há os mercados. Fui a um deles. Lá, a sujeira onipresente era realçada por uma camada de gosma derrapante e fedorenta no chão dos corredores estreitos, onde pedestres disputavam espaço com bicicletas e motos.

Tudo muito pitoresco... até chegarmos à peixaria.

Eu tinha ficado um pouco para trás fotografando, quando ouvi o grito de uma amiga. Corri em tempo de ver, num balcão, um peixe grande que acabara de ser cortado em dois, ainda vivo, sangrando e se debatendo. Fiquei paralisada olhando para a cara daquele bicho que saltava sem a parte de baixo do corpo, e que levou uma eternidade para morrer.

Mas não havia sido essa a causa do grito da Luciana. Quando ela me encontrou, depois de ouvir o meu grito (claro, nem percebi, mas gritei também), o peixe já estava quase morto. O que ela vira havia sido igualmente horripilante: uma vendedora esmigalhando uma enguia também viva no chão, e depois cortando fora a sua cabeça com uma tesoura. Os chineses acharam o nosso pavor muito engraçado.

Todos os animais (sapos, cobras, enguias, peixes, caranguejos, tartarugas) são mantidos vivos em pequenas bacias, cuja água se renova com tubos de oxigênio iguais aos que se usam em aquários. As tartarugas, empilhadas umas em cima das outras, tentavam escapar, desesperadas. Logo adiante, uma moça limpava uma batelada de cobras. Cortava-lhes as cabeças, depois as abria ao comprido para tirar espinha e entranhas. Fazia isso de forma tão automática que nem as olhava mais.

Fugimos da peixaria, mas caímos num lugar pior: o aviário. Vi um cisne com as asas quebradas para trás, "amarradas" num tipo de nó, sendo pesado num gancho que o suspendia por este nó. Vi centenas de patos uns em cima dos outros, alguns com as patas partidas, todos com as asas quebradas dessa mesma forma, e nunca mais vou conseguir me esquecer do olhar dessas aves, eu que achava que aves não têm expressão.

Nunca na vida vi um descaso tão generalizado com o sofrimento, uma tal banalização da crueldade. Pode-se argumentar que a forma como criamos os frangos nas nossas granjas não é mais "humana" (que palavra inapropriada!), ou que um matadouro não é muito diferente disso; não sei.

No quesito comida chinesa, a única coisa que posso fazer é parafrasear aquele ex-notável da República:

-- Mata, mas não estupra.

(O GLOBO, Segundo Caderno, 16.01.2003).