Antes de viajar para Xangai, li uma "biografia" da cidade, dois guias de turismo e uma quantidade de sites na internet. Por diferentes que sejam suas observações e perspectivas, todos fazem questão de ressaltar um ponto: nunca, jamais, em hipótese alguma, compre nada sem pechinchar. Alguns vão mais longe, e até explicam como pechinchar na China, de modo que não posso reclamar de não ter sido avisada. Acontece que esta é uma informação rigorosamente inútil quando a pechincha não vem de fábrica no DNA, ou não se põe gosto na coisa.
Temos, orientais e ocidentais, visões radicalmente diferentes do que deve ser uma operação comercial bem-sucedida. Para nós, quanto mais rápido se resolve a questão, melhor; para eles, o importante é discutir preço e mercadoria nos mínimos detalhes, nem que nisso se leve o dia inteiro. Essa negociação acontece mesmo em lojas como a da foto, em que os preços estão, pelo menos em tese, bem definidos.
Este não é um hábito pitoresco desenvolvido para divertir e eventualmente esfolar turistas, mas uma diferença cultural profunda e real entre pessoas, países, civilizações e -- suponho -- até épocas. Está ligada ao estilo de vida, ao tempo de que se dispõe e ao que se considera (ou não) útil e valioso -- a começar, é claro, pelo próprio tempo, e pelo que ele representa para cada um.
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Outra diferença, em casos como o do carro, é que a pechincha rola em grande parte por escrito. Aquele "Cubro qualquer oferta!", que achamos tão normal, é o grito de desespero do sujeito que quer fazer negócio a qualquer preço e, filosoficamente, não chega a ser muito diferente do gesto do chinês que puxa o freguês pelo braço na hora em que ele se cansou da brincadeira e está indo embora da vigésima quinta lojinha de quinquilharias.
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Funciona (vagamente) assim: o vendedor pede cerca de três vezes mais do que está disposto a aceitar, mas para chegar a este terço negociável, o comprador deve começar a conversa pela metade do seu valor. Assim, se o vendedor mostrar 300 na calculadora, você deve exibir um ar de total perplexidade e teclar 50; diante do que ele fará um ar de desgosto absoluto, e digitará 280; ao que você, em estado de choque, responderá 70; e aí, progressivamente, entre caras e bocas, um baixando e o outro subindo, se chegará a algo em torno dos 100 que farão a felicidade de todos e o bem-estar da nação.
Este tipo de pechincha torna a compra um indiscutível ato de interação social, e devia ser muito gratificante para todos há algumas décadas, num mundo sem pressa, sem cinema e sem televisão, em que ir ao bazar era a maior diversão. Imagino que faça sentido até hoje entre pessoas que moram na mesma região do globo e falam línguas pelo menos parecidas. Mas numa loja de lembrancinhas, onde ninguém se entende e todos estão de passagem?! Tendo que lembrar, em plena experiência cultural, que o dólar está a 8,2 yuan e cerca de 3,4 reais?! Não, meninos, não é uma alegria.
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Para mim, antes de ir à China, o grande mistério a respeito da viagem de Marco Polo não era saber como ele chegou até lá, mas sim como fez para se comunicar com os chineses. Agora mudou um pouco. Eu só queria saber como é que ele conseguiu pechinchar com eles sem calculadora.
(O GLOBO, 23.01.03)
